PEDRO CAETANO

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Visitei o estúdio de Pedro Caetano, artista, ex-galerista, fundou a galeria Polinésia em 2007, e curador. Na minha humilde opinião, uma das pessoas mais interessantes dessas bandas.

MJournal – Na visita ao seu estúdio, vi que os seus trabalhos em fase de produção, que estarão na sua próxima exposição, refletem a sua relação com as suas filhas. Eu não tenho filhos, por isso posso perguntar, como é ser pai e como isso interfere no seu trabalho?

Pedro Caetano – Ser pai muda completamente sua relação com todas as coisas, inclusive com a forma que você trabalha. Ser pai é uma coisa fabulosa e assustadora. Você não pode pensar só em você – o que para um artista pode ser bem complicado. Todo seu tempo, as decisões que você toma, a forma como vive mudam. Tudo tem que atender à vida e às necessidades de outra pessoa. Essa é a parte difícil. Ao mesmo tempo, você tem esse outro ser em formação na sua frente, você é testemunha da maravilha que é conhecer o mundo, as coisas, a linguagem, e tudo mais que forma um ser humano. Disso saem muitas das questões que eu coloco no trabalho, disso surge uma forma de auto-conhecimento e entendimento das coisas maravilhosas. Além disso tudo, passei muito tempo desenhando com elas, aprendendo sobre questões práticas do meu trabalho, como composição, forma, cor e afins. A criança pequena tem uma pureza em relação a essas questões que ao longo da vida acabam soterradas por neuroses e insegurança, então aprendo demais com elas e quando vejo masterpieces aparecendo ali no chão de casa, levo pro estúdio e copio sem dó.

MJ – O seu humor é conhecido por quem te conhece, ou por quem segue você nas mídias sociais. Esse humor possui uma ironia fina, bem elaborada. Você reconhece esse humor no seu trabalho?

PC – Sem dúvida. Acho que humor é uma ferramenta muito boa pra gente contornar a miséria do mundo e de nós mesmos. Sem humor, eu nada seria, tá na bíblia. Meu trabalho sempre acontece como resposta a alguma coisa, seja um outro trabalho, alguma situação ou coisa do mundo. Eu lembro que na escola, assistindo as aulas, eu passava o tempo todo pensando em alguma resposta bem humorada para o que o professor dizia. Na maioria das vezes em ficava quieto, desenhando e pensando em voz baixa. Outras vezes eu levantava o dedo e falava alguma bobagem. Até hoje tenho professores que me detestam. Esse exercício mental, essa compulsão de tentar dar respostas pra tudo é uma coisa que me persegue o tempo todo. Vejo uma placa de publicidade no metrô e penso em como desarmar aquilo de um jeito bem humorado, no facebook idem, em uma exposição também. Ao longo dos anos fui aprendendo – na marra – a ficar mais quieto, rir sozinho e a aceitar que o mundo é meio chato mesmo e que, inclusive o que eu faço pode ser bem abaixo da expectativa. É um aprendizado. O humor que me interessa hoje é menos crítico e mais generoso, tô tentando me afastar desse meu lado, quero fazer yoga, comer granola, fazer pintura metafísica e melhorar meu karma; de verdade, sem ironia.

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MJ – Como você avalia os espaços expositivos de São Paulo? Como um artista independente consegue se relacionar com o mercado das artes?

PC – Eu não sou mais um artista independente, madruguei cedo e Deus ouviu minha oração. Hoje trabalho com a Boatos Fine Arts em São Paulo e com a Cavalo no Rio. Eu sou profissional em dar tiro no pé, cuspir no próprio prato e queimar minhas pontes… então vou pegar uma tangente e tentar sair bem na foto: acho que a sociedade brasileira de maneira geral é muito conservadora. Nunca entendi muito bem essa implicância com os taxistas, por exemplo. Eu tendo a não gostar da opinião de taxistas, do cara da padaria, da caixa do banco, dos advogados, dos dentistas e dos curadores. Acho que a gente tem que ir passeando pelo mundo e vendo onde a gente encontra gente com quem você pode tirar lama da trincheira junto. Entre os artistas eu costumo encontrar gente que gosto muito, o que é uma motivação pra continuar vivendo orgulhoso e miserável. Entre os espaços expositivos, acho que existe o problema do conservadorismo brasileiro, somado a precariedade estrutural, já que o sistema das artes como um todo, é muito pequeno pra um país de 200 milhões de pessoas; ou no nosso caso, uma cidade de 20 milhões. Acho que falta investimento privado e comprometimento por parte dos mais ricos, faltam espaços independentes não comerciais mantidos pela iniciativa privada, falta um real engajamento dessas pessoas com a importância social da arte, em perceber que investir em arte vai muito além da decoração e do investimento financeiro. Acho que se os ricos realmente se envolvessem com o país, isso aqui virava uma grande Suécia, cheio de museus lindos, mobiliário elegante, iluminação indireta e gente fazendo fila no cinema pra ver filme do Bergman.

MJ – Se você fosse chamado para fazer uma intervenção em São Paulo, por onde você começaria?

PC – Acho que eu começaria tirando todas as tevês que passam o Datena no talo dos botecos. Colocaria no lugar aparelhos de som tocando uma playlist suave e amorosa, cheia de rocksteady e samba canção. Tiraria também o piso frio e fácil de limpar de todos os imóveis e colocaria um revestimento mais human friendly. Feito isso, o resto se resolvia. Nosso problema é fundamentalmente estético. É uma deficiência estrutural por falta de uma educação sentimental e estética afetuosa e eficiente. Os nossos problemas éticos, cognitivos, sociais e afins nascem dessa carência.

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MJ – A sp-arte é a nova SPFW? Você acha que a arte está na moda?

PC – Acho que pode ser, nunca entendi porque eles não fazem tudo junto. Podia fazer junto com o BoatShow, a Ud e aquela feira de comida viking. Todo mundo saía ganhando.
Eu espero muito que esteja, preciso pagar um monte de conta e só uso material caro… mas a arte é a última trincheira, um grupo muito pequeno de pessoas, difícil dizer que está na moda.

MJ – O que você pode adiantar sobre a sua nova exposição?

PC – Que fala sobre a minha percepção da passagem e do tempo, da relação entre vida e morte e numa preocupação maior nas características e possibilidades dos materiais.
E que não tem nada a ver com o que eu fiz antes e que isso é meio assustador. A Anna, minha galerista, não dorme há 10 dias.

MJ – Muito se fala sobre uma onda reacionária que vem ganhando força no mundo. Como um artista pode reagir a isso?

PC – É realmente preocupante o que acontece. Se eu não tivesse duas filhas, passaria meus dias bebendo e escrevendo poema de amor em guardanapo. Tem dias que eu fico paralisado pensando no futuro. Mas não posso. Acho que o artista tem que se posicionar, deixar claro que não está à parte das coisas, separado do mundo. Que não aceita retrocesso, que tá pronto pra trabalhar a favor do progresso e contra o retrocesso. Conheço uma porção que vive meio absorto do mundo, que não se afeta. Tenho um pouco de inveja, deve ser mais fácil pra dormir. Acho que temos que tomar partido, sempre, dizer o que se quer e como. O problema é não deixar que isso afete o trabalho, se não a gente corre o risco de fazer arte panfletária, proselitista, dogmática. Vira uma chatice, pior que participar de plenária do FFLCH. Não acho que é por aí. O artista tem que produzir linguagem e, se rolar, beleza, essa é a meta. O discurso é secundário. Fazer isso já é difícil pra cacete, pra que complicar?



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